Violência doméstica, feminicídio e saúde pública

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São inúmeras as notícias sobre violência doméstica contra mulheres diariamente. É estarrecedora a brutalidade deste tipo de violência que assola inúmeros lares do País e que, em seu estágio final, tira a vida de jovens, de mulheres, de mães e abala as famílias brasileiras.

Se houve avanços no campo jurídico, em outras áreas há muito a caminhar. A violência doméstica, que leva a ferimentos físicos e emocionais, com cicatrizes profundas, tem sido negligenciada como problema de saúde pública.

Vemos iniciativas isoladas, porém, não só no Brasil, como em outros países, profissionais de saúde não são formados para lidar com essa difícil questão. A falta de conhecimento e treinamento para assistir aos casos de forma eficaz faz com que o assunto seja pouco abordado nas consultas médicas, tirando a oportunidade de essas mulheres, em ambiente protegido pelo sigilo profissional, terem acesso a uma escuta qualificada, acolhedora e eficaz.

Diversas vezes, sintomas inespecíficos podem traduzir situações de violência que só serão reveladas se questionadas. Não podemos esperar uma profusão de relatos espontâneos de maus tratos. Isso raramente acontece, por medo, vergonha, tristeza ou até pela falsa impressão de que tudo poderá ser resolvido.

A abordagem deve ser delicada e respeitosa, considerando o sofrimento crônico apresentado por estas mulheres. Referir-se a quanto episódios assim vem acontecendo em nossa sociedade e quanto tal situação afeta a saúde das pessoas pode ser uma forma de, em poucos minutos, oferecer a elas a oportunidade de falar.

É essencial capacitação profissional para saber o que fazer quando se obtém uma resposta positiva. Reafirmar a relação de confiança, oferecer canais legais disponíveis à denúncia e mostrar que se importa com a paciente são atitudes simples, mas imprescindíveis para a pessoa vulnerável encontrar um caminho.

Os profissionais de saúde devem estar atentos e conhecer os canais a serem indicados às eventuais vítimas. O combate à violência doméstica precisa ser considerado compromisso de todos, especialmente dos médicos obstetras e ginecologistas, que temos o privilégio de participar de tantos momentos felizes e tristes da vida das mulheres.

É preciso preparo. Há erros comuns que nos afastam da responsabilidade e do compromisso de combater esta mazela social. Não podemos esperar atitude imediata por parte de quem sofre a violência, isso raramente ocorrerá. Não devemos oferecer soluções prontas, elas frequentemente não se aplicam à realidade da vítima.

Ao não entender o quanto é difícil para alguém se afastar de um relacionamento violento, sentimo-nos frustrados e tomamos a pior atitude; nos afastamos, paramos de conversar sobre o assunto e aprofundamos o isolamento e a solidão dessas pessoas.

A situação em nosso País é grave e exige ser encarada como problema de gênero, de justiça, mas também de saúde pública. A transformação desta realidade passa necessariamente pela formação e qualificação dos profissionais para atenção à violência doméstica.

Precisamos transformar a indignação passiva com os inúmeros casos de feminicídio em escuta ativa das mulheres. Mais que isso: em compromisso explícito de combate à violência contra as mulheres. 

 

Rossana Pulcineli Vieira Francisco, 
prof. associada da Disciplina de Obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP e presidente da SOGESP, Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo


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